​Segundo uma matéria publicada nesta manhã do dia 02 de junho de 2020 pela jornalista Eleanor Bird do conceituado site MedicalNewsToday, ao passo que os esforços para se encontrar uma vacina que seja eficaz para combater o SARS-CoV-2 (COVID-19) aumentam, imunologistas salientam que o aceleramento de ensaios clínicos pode ser catastrófico.

​Ademais, legiões incontáveis de cientistas de todo o mundo estão trabalhando para desenvolver uma vacina eficaz para o novo coronavírus, SARS-CoV-2 (COVID-19). No entanto, até a presente data, o mundo pode contar apenas e tão somente com medidas físicas de distanciamento e de equipamentos de proteção individual (EPI). Todavia, ocorre que alguns países estão usando sistemas de trackand-trace (rastreamentoavançado) a fim de monitorar os movimentos de pessoas e notificar aqueles que estiveram em contato com alguém já sabidamente diagnosticado com COVID-19. Destarte, eis que um tratamento para COVID-19 plasma algo altamente desejávele o antiviral remdesivir da Gilead parece acelerar o tempo de recuperação em algumas pessoas. Os Estados Unidos e o Reino Unido já autorizaram seu uso como tratamento para portadores do COVID-19.

​No entanto, há de se convir que o antiviral remdesivir não passa de um tratamento e jamais uma cura, desta feita, eis que alguns resultados de ensaios clínicos não mostram benefícios significativos com o remédio da Gilead, por conseguinte, uma vacina parece ser a única solução segura e preferível.

​Embora a vacina COVID-19 seja urgente, os cientistas não podem apressar o processo de desenvolvimento e/ou pular etapas cruciais. Numeditorial recente, o imunologista e editor adjunto da revista Science Advances, Dr. Douglas J. Green, ensinou que ignorar os ‘estágios essenciais’ dos ensaios clínicos de qualquer vacina pode ser uma “tolice catastrófica”.

​PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA VACINA

Hoje em dia, eis que existem 95 vacinas contra a SARS-CoV-2 em desenvolvimento. Desta feita, após os estágios de descoberta e desenvolvimento pré-clínico, ocorre que cada um deles deve progredir em três fases de ensaios clínicos.

A fase I envolve testes de segurança em uma coorte pequena (por exemplo, 10 a 50 pessoas). Os ensaios de fase II envolvem a investigação da resposta imune em uma coorte maior. Os ensaios da fase III envolvem grupos muito maiores de pessoas (às vezes na casa dos milhares) e devem mostrar, de maneira estatisticamente significativa, que a vacina pode proteger contra infecções. Somente este estágio pode levar vários anos em circunstâncias normais.

​No contexto da pandemia do COVID-19, trata-se de muito tempo para esperar e vale a pena correr alguns riscos suplementares. A maioria das estimativas indica que uma vacina estará disponível entre 12 e 18 meses. Todavia, a rapidez relativa se deve à simplificação dos processos normalmente mais delongados tais como testes pré-clínicos acelerados e processos de revisão regulatória.

​Alguns especialistas também defenderam o “rastreamento rápido” de algumas etapas de ensaios clínicos. Eles sugerem que a evidência de que uma vacina desencadeia a produção de anticorpos neutralizantes pode ser suficiente para progredir na implementação generalizada.

​O artigo da Science Advances alerta que essa rota pode ser perigosa e diz que os cientistas devem realizar testes de segurança abrangentes para qualquer vacina em potencial.

COMPREENDENDO A RESPOSTA IMUNE

O artigo levanta preocupações sobre a repetição do julgamento de 1966 de uma vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), que pode causar doenças graves em crianças pequenas.

Após o teste da vacina, ​eis que muitas crianças ainda contraíram o vírus e sofreram sintomas ainda piores do que antes e o resultado funesto foi o óbito de duas crianças.

Pesquisas realizadas muito depois mostraram que a vacina falhou porque não gerou os anticorpos protetores necessários, isso porque o sistema imunológico não havia sido adequadamente preparado contra o vírus.

Destarte, tal tipo de resposta imune, específica dum patógeno específico, chama-seimunidade adaptativa. Contrasta com a imunidade inata, que é a primeira linha de defesa do corpo e não é específica para uma infecção específica.

​A imunidade adaptativa envolve a produção de anticorpos específicos, que é o que a maioria das vacinas pretende alcançar.

​Envolve um tipo de célula imune chamada células T auxiliares, também conhecidas como células CD4 +. O sistema imunológico exige que essas células produzam anticorpos com forte ligação. Isso ocorre através dum processo chamado maturação por afinidade de anticorpos.

​Na falha da vacina contra o VSR, ocorreu uma falta de maturação por afinidade de anticorpos, algo que levou as crianças a teremuma resposta pior do que a habitual quando contraíram o vírus.

​Assim sendo, diversos estudos apontam que respostas imunes ao SARS-COV-2 já definiram que o número de células T CD4 + é crucial para superar a doença, algo que, sobretudo, deve ser considerado vital para o desenvolvimento da vacina.

APRIMORAMENTO DEPENDE DE ANTICORPOS

O fracasso da vacina contra o VSR destaca a importância de se entender completamente a resposta imune antes de avançar para os ensaios clínicos.

Outrossim, eis que ocorre que outra forma segunda a qual uma vacina pode causar danos é através do aprimoramento dependente de anticorpos (ADE). Isso significa dizer que os anticorpos produzidos contra o vírus também se ligam aos receptores nas células hospedeiras, o que acarreta considerar que é mais provável que o vírus os infecte.

​Especialistas observaram esse efeito em vacinas contra dengue, ebola e HIV e em um coronavírus em gatos.

​No mais, considerar-se-á, decerto, que vários estudos de vacinas contra a SARS-CoV em macacos rhesus (animal geneticamente mais próximo do homem) não mostraram evidências de ADE.

INDO DEVAGAR PARA CHEGAR RÁPIDO

Além dos obstáculos científicos, avista-se uma barreira colossal de muitos obstáculos éticos a serem superados antes da realização de estudos de vacinas experimentais em pessoas.

Ademais, ocorre que estudos que possam apresentar riscos significativos são mais delongados. Green diz que os cientistas devem ponderar esses “riscos extremos” numa balança com os possíveis benefícios.

​A mensagem do artigo é que, embora o tempo seja essencial, trata-se de algo essencial a garantia da segurança de qualquer vacina em potencial.

​Enfim, urge como um pré-requisito vital a garantia da segurança de qualquer vacina, incluindo, aliás, uma investigação completa de seus potenciais efeitos adversos e afins. Desse modo, apressar esse processo pode ter consequências catastróficas, diz o Dr. Green, que recomenda a aplicação do axioma ‘ir devagar para chegar rápido’ para o desenvolvimento da vacina contra a COVID-19.